sexta-feira, 21 de setembro de 2012

O surdo, esse desconhecido - matéria jornal

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Opinião - http://www.atribunanet.com/noticia/o-surdo-esse-desconhecido-59033


O surdo, esse desconhecido

Cristiane Seimetz Rodrigues
Professora - cris.seimetz@gmail.com





Não raro é possível vivenciar situações em que os que ouvem chamam aos que não

ouvem de "surdo-mudo", "mudo", "mudinho", na crença de que todo surdo é mudo. A

verdade, porém, é que bem poucos surdos são mudos, e há muitas pessoas mudas que

não são surdas. O mudo é a pessoa privada de algum órgão do aparelho fonador que

o impeça de produzir sons, por exemplo, ter nascido sem cordas vocais. Como não

pode produzir espécie alguma de som, consequentemente, ele não utiliza a fala.



A fala, enquanto atividade que envolve a produção de sons, também não é

empregada por boa parte dos surdos, o motivo é simples: eles podem produzir som

- entendido, nesse caso, como barulhos, ruídos -, mas como não podem captá-lo,

ficam, na maioria das vezes, impossibilitados de produzir ou reproduzir sons da

fala. Na condição de atividade linguística oral, a fala é aprendida por meio da

audição. Assim, a surdez dificulta ou impede a aprendizagem dos sons ditos

linguísticos. Para compreender a diferença, basta pensar numa cena em que um

surdo dá uma topada numa pedra. Ele vai, possivelmente, urrar de dor, fará

barulho, sua expressão de dor será tão ruidosa quanto à de um ouvinte. A

diferença reside no fato, malvisto pelos politicamente corretos, de que o

ouvinte empregará uma (ou umas) expressãozinha de baixo calão para extravasar

sua dor/raiva.



O exemplo acima é apenas um possível. Surdos também podem produzir muito barulho

- sons vocais - para chamar a atenção de um ouvinte, pelo motivo que for. Embora

o usual seja encontrar surdos que não se utilizam da língua oral, há os que após

anos de tratamento com fonoaudiólogos e professores de português conseguem se

comunicar muito bem por meio da fala. Seus diálogos, nesse caso, são sempre

travados frente a frente com o receptor, de forma que o surdo possa efetuar a

leitura labial. Enganam-se os que pensam que a leitura labial é uma constante

entre os surdos. Tal habilidade requer gastos dispendiosos, paciência e muitos

anos de treino para ser adquirida e, o pior, nem sempre pode ser empregada -

muitos fatores acabam por prejudicar a leitura labial, como o uso de barba e/ou

bigode, a distância entre as pessoas envolvidas no ato comunicacional, a forma

particular como algumas pessoas articulam certas palavras da língua etc.



Pelos motivos apontados acima, o meio natural de comunicação entre surdos e

entre surdos e ouvintes é o uso da língua brasileira de sinais - Libras -, já

reconhecida por lei como a língua oficial de comunicação dos surdos brasileiros.

Trata-se de um sistema linguístico visual, em que as palavras são articuladas em

sinais, ou melhor, os sinais são palavras. Estes, por sua vez, organizam-se em

frases e estas, em texto/discurso. Ao “sistema de comunicação” empregado pelos

que não ouvem, chamamos língua, e não linguagem. O português e a Libras são

“sistemas de comunicação” distintos, são línguas diferentes, cada uma com suas

próprias regras gramaticais. E, não, línguas de sinais não são universais. No

Brasil, aliás, não existe apenas a Libras, há também a língua de sinais

empregada pelos índios caapores-urubus, consideravelmente distinta daquela.



Infelizmente a Libras ainda é uma desconhecida para a população ouvinte e mesmo

para uma parcela significativa de surdos, circunstância ocasionada, em relação a

esses últimos, por alguns fatores históricos, sociais e "acidentais" - desculpe,

leitor, a falta de um termo melhor. Fatores aos quais pretendo me ater em um

próximo texto sobre os surdos, que, lembre-se bem, raramente são mudos.











Na vida, não existem soluções. Existem forças em marcha: é preciso criá-las e, então, a elas seguem-se as soluções.
Antoine de Saint-Exupéry



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